Os cidadãos brasileiros representaram quase sete em cada dez autorizações de residência concedidas a estrangeiros no Paraguai entre janeiro e outubro de 2026. Conforme dados da Direção Nacional de Migrações do país, foram emitidas 34.794 autorizações para brasileiros, o que representa 67% do total geral do período.
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Fama de Suíça sul-americana e alta de pedidos
O interesse pelo território paraguaio é impulsionado por fatores como tributação reduzida, ótimas oportunidades de negócios e a alta procura por cursos de Medicina, elementos que consolidaram a imagem do país como um paraíso para investidores.
No total, os pedidos de residência por parte de estrangeiros registraram um salto de 42% em comparação ao mesmo período de 2025, contabilizando 54.344 solicitações nos dez primeiros meses do ano e superando o volume acumulado de todo o ano anterior.
Impacto da crise política e bancária
Esse avanço migratório ocorre simultaneamente a um cenário de instabilidade institucional e financeira. O Banco Central paraguaio suspendeu as atividades do Ueno Bank após detectar falhas financeiras, bloqueando o acesso de clientes — incluindo muitos brasileiros — aos seus recursos.
No âmbito político, a Câmara dos Deputados deu prosseguimento ao processo de impeachment do presidente Santiago Peña, após reviravoltas que envolveram o anúncio de renúncia e a posterior retomada do julgamento pelo Congresso.
Histórico de atração e novos investidores
De acordo com o professor e pesquisador da Unila, Aníbal Orué Pozzo, a forte presença do Brasil no país vizinho é fruto de diretrizes estatais iniciadas em 2013 e mantidas pelas gestões seguintes.
“Nos últimos 12 anos, o Paraguai estruturou uma política para atrair investimentos e pessoas do Brasil. O que vemos hoje é resultado desse processo”, explica.
O acadêmico também aponta a criação recente do programa Paraguay Investor Pass, modalidade voltada para estrangeiros dispostos a aplicar recursos a partir de US$ 70 mil associados a planos de negócios e geração de empregos.
O peso dos estudantes de Medicina
Além do setor empresarial, a comunidade acadêmica brasileira exerce forte influência nesse fluxo migratório. O país registrou 12.617 autorizações de residência para estudantes do Brasil em 2025, um crescimento expressivo de 56% frente aos dados de 2022.
Segundo Pozzo, essa busca acadêmica movimenta a economia local e atrai núcleos familiares inteiros para o território paraguaio.
“Os estudantes também vêm acompanhados de familiares, como pais e irmãos, o que contribui para aumentar a presença de brasileiros no Paraguai. Parte desse fluxo migratório está ligada à procura por cursos de Medicina”, explica
Incerteza sobre o futuro da migração
Para o pesquisador, o cenário atual de instabilidade institucional e econômica pode frear a chegada de novos migrantes e investidores nos próximos meses, dependendo exclusivamente de como o governo vai gerenciar e superar a crise.
“Evidentemente, a crise pode frear o aumento da migração de brasileiros para o Paraguai, sem dúvida. Se não existe uma estabilidade política, social ou econômica, obviamente as pessoas não vão migrar para um país que tem essa situação”, afirma.
Ele complementa:
“Então, sem nenhuma dúvida, vamos ter que observar de que forma o Paraguai vai se estabilizar para ver se esse processo vai continuar atraindo os brasileiros para o Paraguai.”
Relatos de brasileiros afetados pela quebra do banco
A paralisação das atividades do Ueno Bank gerou forte impacto na rotina de moradores brasileiros que utilizavam a ferramenta digital para gerenciar despesas cotidianas e compromissos financeiros.
A empreendedora Jhenifer Vogado, residente em Santa Rosa del Monday, relatou o drama de ficar sem saldo da noite para o dia, precisando recorrer a parentes para comprar remédios para o filho pequeno.
“A gente dependia dele para tudo: para pagar mercado, para pagar internet, para pagar a luz, para fazer transferência, para tudo. A gente dormiu com o salário que recebemos no começo do mês e acordamos no outro dia sem nada do dinheiro, nada”, detalha.
Ela lamentou a falta de comunicação prévia da instituição financeira e a situação vulnerável de outras famílias.
“Eu não tinha a cabeça para nada. Meu emocional estava abaladíssimo. Foi um sentimento de tristeza, porque, além de nós estarmos precisando, tem mais famílias que estão sem dinheiro. Por sorte, a gente tem alguém que possa nos emprestar, mas e as pessoas que não têm? Que dependiam desse salário do mês? Como que essas pessoas ficam sem comida, sem acesso a remédio?”, lamentou.
Estudantes universitários também enfrentam dificuldades severas para honrar compromissos básicos, como aponta a estudante de Medicina Camila Brito, que precisou negociar prazos com locadores em Assunção.
“É uma situação muito complicada acordar e não ter acesso nenhum ao seu próprio dinheiro, ainda mais no dia seguinte ao tradicional dia de pagamento dos salários. Isso significa que as pessoas, inclusive nós, havíamos acabado de receber e não tínhamos como cumprir as nossas obrigações financeiras. No geral, as pessoas estão sendo solidárias e permitindo que as despesas sejam renegociadas. O que resta agora é esperar que os valores sejam desbloqueados o mais rápido possível”, afirma.



