O monumental resgate de 39 mil animais na construção de Itaipu

Durante a construção da hidrelétrica de Itaipu na década de 1980, uma operação sem precedentes salvou quase 39 mil animais silvestres ameaçados pelo avanço das águas na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Desafio inédito na América Latina Com o fechamento das comportas em 13 de outubro de 1982, uma vasta área da Floresta Atlântica do Alto Paraná começou a ser inundada para formar o reservatório da gigantesca usina. Para evitar uma tragédia ambiental de proporções históricas, o engenheiro agrônomo Darío Pérez Chena assumiu a frente de uma força-tarefa pioneira batizada de Mymba Kuéra, que significa “os animais” em guarani. “Era um grande desafio. O Paraguai nunca havia feito nada parecido, nós fomos os pioneiros”, relembrou o especialista.

Preparativos e inventário rigoroso Meses antes do alagamento, equipes formadas por botânicos, zoólogos e engenheiros mapearam minuciosamente a fauna local por meio de pegadas e fezes. “O relevo permitiu a construção de um grande arquivo da fauna paraguaia”, contou o engenheiro Pérez Chena à BBC. “Contribuímos muito para o conhecimento daquela região. E também oferecemos a oportunidade de aprender a muitos alunos de biologia, veterinária e agronomia.” Com base nesse mapeamento, um grupo de 189 socorristas cuidadosamente selecionados foi mobilizado para a missão nas margens do rio Paraná. “A equipe foi muito bem selecionada”, recorda ele. “Tentamos levar pessoas jovens, com não mais de 40, 45 anos, que soubessem nadar, que tivessem boa visão e boa audição.”

Logística e tecnologia de época As equipes utilizavam lanchas com motores rudimentares e rádios antigos para se comunicar, muitas vezes na língua guarani, enquanto contavam com o suporte de médicos, bombeiros e pilotos de helicóptero. “A tecnologia era diferente naquela época”, recorda Pérez Chena. “Não tínhamos telefones sem fio, tínhamos rádios antigos e os motores das lanchas eram menos desenvolvidos que os atuais.” “Usávamos equipamentos que hoje, praticamente, são peças de museu, mas fizemos com eles algo que, hoje em dia, é sempre analisado e recordado.” “Com essa bagagem de conhecimento e de recursos humanos, saímos para a aventura no dia 13 de outubro de 1982”, conta o agrônomo.

A corrida contra a subida das águas Enquanto o nível do lago subia rapidamente, os profissionais priorizaram espécimes vulneráveis que não conseguiam nadar longas distâncias, deixando de lado animais como onças-pintadas. “Salvamos apenas os animais que não sabiam nadar”, conta Pérez Chena. “Alguém me perguntou: ‘Quantas onças-pintadas vocês salvaram?’ Respondi: ‘Nenhuma.’ Porque a onça-pintada é uma grande nadadora e não precisa ser salva.” “Existem até onças-pintadas que cruzam o rio Paraná, do Paraguai para o Brasil e do Brasil para o Paraguai”, explica ele. Os resgates incluíram macacos exaustos, aves com as penas encharcadas e uma enorme quantidade de serpentes peçonhentas. “Na água, muitos animais são totalmente indefesos”, ele conta. “Eles concentram toda a sua energia em se salvar. Por isso, é fácil pegá-los com uma rede ou laço.” “Salvamos macacas com filhotes pequenos pendurados no pescoço. Parecia que elas choravam por perderem sua liberdade.” Além disso, os riscos biológicos exigiam preparo constante. “Existem víboras com veneno tão tóxico que é preciso agir em poucos minutos”, segundo Pérez Chena. “Em cada lancha, tínhamos um kit com soro antiofídico para uso em casos de emergência.” “Encontramos aves chafurdando na água”, relembra ele. “Elas subiam nos ramos das árvores para caçar insetos e, às vezes, molhavam as penas da cauda, que é o timão delas. Precisamos começar a buscar jaulas especiais para recolher aves.”

Destino dos animais resgatados Ao término da operação em 10 de janeiro de 1983, a contagem oficial apontou 27.150 salvamentos no lado paraguaio e cerca de 11 mil no lado brasileiro, totalizando um recorde continental. Parte expressiva das cobras venenosas foi enviada ao Instituto Butantan, em São Paulo, para pesquisas e fabricação de antídotos. “Às seis horas da manhã, saía todos os dias o primeiro avião que levava os caixotes com as cobras rumo a São Paulo”, recorda Pérez Chena. Já alguns tatupebas, resistentes à lepra, acabaram embarcados para investigações científicas no Japão. “Ele é um dos poucos animais resistentes à lepra”, explica o engenheiro. “Esses tatus do Alto Paraná foram parar em Tóquio para estudos científicos.”

Legado para a conservação ambiental Apesar do sucesso estrondoso, os organizadores reconhecem que perdas foram inevitáveis devido à inexperiência da época. “Salvamos muitos animais, mas provavelmente morreram muitos outros”, lamenta ele. “Insetos, por exemplo. Não sabemos quantos animais que moravam embaixo da terra passaram a fazer parte da matéria orgânica do solo.” “Admitimos que houve erros, mas nunca por negligência”, explica o agrônomo. “Somente por inexperiência.” “Sempre trabalhamos com as mãos limpas, com a consciência limpa de que estávamos fazendo algo positivo para o mundo. Trabalhamos com muita honestidade, dentro do que conhecíamos e acreditávamos que fazíamos bem. Tivemos grande convicção.” O esforço coletivo fortaleceu os laços entre os participantes e evitou tragédias humanas. “Nós protegíamos uns aos outros o dia todo.” “Não tivemos nenhum acidente sério. Apenas pequenas mordidas de macacos, mas todos os 189 retornaram.” Décadas mais tarde, aos 87 anos, Darío Pérez Chena celebra o impacto duradouro daquela iniciativa monumental para a biodiversidade da América do Sul. “Recebemos títulos internacionais como grandes defensores da natureza”, conta Pérez Chena. “Mais o mais lindo talvez seja que fizemos algo de positivo pela biodiversidade daquela região.” “Às vezes, as pessoas dizem que o que passou, passou. Mas o passado deve nos ensinar a não cometer os mesmos erros”, declarou o engenheiro paraguaio à BBC. “Por isso, digo que a história é a professora da vida.” “Para nós, foi um orgulho termos trabalhado na recuperação dos animais antes que eles se perdessem. Deixamos uma pegada que é seguida até hoje.”

Deixe uma resposta