Campanha eleitoral é uma espécie de deserto. Durante algumas semanas, candidatos atravessam provações, enfrentam tentações e distribuem promessas. A diferença é que, nesta travessia, quem precisa resistir às tentações não é o candidato. É o eleitor.
Nos anos 1990, as campanhas eleitorais brasileiras podiam se estender por períodos muito maiores. Com o tempo, o custo das disputas, as mudanças na legislação e o crescimento das mídias sociais contribuíram para reduzir esse período. Hoje, oficialmente, são cerca de 45 dias de campanha.
A comparação com os 40 dias vividos por Jesus no deserto, relatados nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, pode parecer exagerada. Mas há uma semelhança: em ambos os casos existe uma travessia marcada por provações e tentações.
Na política, porém, a tentação é outra. Há uma enxurrada de propostas, números, perspectivas e uma intensa venda de esperança. Promete-se um futuro melhor, mais justo e mais promissor. Mas nem sempre fica claro para quem.
É nesse ambiente que surge um fenômeno muito comum nas campanhas: o “varrer para dentro”.
Varrer para dentro é juntar o time. É dizer: venham para o nosso lado. É ampliar o grupo, incorporar lideranças, acomodar diferenças e, quando necessário, deixar antigas divergências para depois. Afinal, em tempos de campanha, companheiro não tem defeito.
É assim que surgem algumas das combinações mais estranhas da política. Pessoas que ontem estavam em lados opostos podem aparecer juntas quando existe um objetivo comum. As diferenças ideológicas, as disputas antigas e até as mágoas políticas passam a ocupar um lugar secundário diante da necessidade de chegar ao poder.
É a velha lógica de que, em política, o adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã.
Em Pato Branco, a eleição deste ano já permite enxergar parte desse movimento. Mais do que uma disputa pelas vagas de deputado federal e deputado estadual, a eleição começa a revelar a formação dos grupos que poderão protagonizar a disputa municipal de 2028.
Para a Câmara Federal, aparecem nomes como Neuza Viganó, pelo Republicanos, Clodomir Ascari, pelo PSB, e Policial Martins, pelo Podemos.
Na disputa pela Assembleia Legislativa, o cenário é mais amplo. Luiz Fernando Guerra, pelo Novo, busca a reeleição e a manutenção dos cerca de 25 mil votos conquistados no último pleito.
Entre os estreantes estão Fabrício Kleinibing, pelo PDT; Emerson Arvelino, pelo Podemos; Ana Kerbe, pelo União Brasil; o vereador Eduardo Dalacosta, pelo Republicanos; e Marcielly Leder, pelo PT. Coronel Zocche, pelo Progressistas, muda o caminho percorrido anteriormente: depois de disputar uma vaga para a Câmara Federal, agora busca espaço na Assembleia Legislativa.
Mas o resultado eleitoral de cada um deles não será medido apenas pela conquista ou não de uma cadeira.
A eleição também servirá para medir força.
Para Neuza Viganó, será a primeira disputa eleitoral como candidata depois do rompimento político com a atual gestão municipal. O resultado poderá indicar como o eleitorado recebeu essa ruptura e qual é o tamanho de seu capital político fora do grupo que atualmente administra o município.
Para Clodomir Ascari, a eleição representa igualmente um teste. Com trajetória construída fora da política partidária tradicional e atuação à frente do Crea-PR, sua candidatura permitirá medir a capacidade de mobilização dos grupos que se aproximaram de seu projeto e o espaço que ele poderá ocupar no cenário político local.
Para Luiz Fernando Guerra, a disputa tem outro significado. Candidato à reeleição, ele procura preservar o capital eleitoral conquistado anteriormente e, ao mesmo tempo, ocupa uma posição cada vez mais identificada com a oposição ao governo municipal. Seu desempenho poderá influenciar não apenas sua trajetória pessoal, mas também os movimentos de grupos que começam a pensar na sucessão municipal.
E é justamente aí que a eleição de 2026 começa a revelar seus contornos mais interessantes.
A disputa deste ano pode ser uma espécie de ensaio geral para 2028. Os grupos que hoje se apresentam juntos, os que se afastam, os que fazem acordos e os que procuram construir uma identidade própria estarão, de alguma forma, testando o terreno para a próxima eleição municipal.
Por isso, os votos de 2026 terão um significado que vai além da escolha de deputados.
Eles serão também uma medição de força.
Quem consegue mobilizar? Quem transfere votos? Quem consegue reunir lideranças? Quem consegue “varrer para dentro” antigos adversários e transformá-los em aliados? E, principalmente, quem conseguirá chegar a 2028 com um grupo suficientemente forte para disputar o comando da cidade?
No fim, talvez essa seja a verdadeira travessia eleitoral.
Enquanto os candidatos tentam resistir às tentações do caminho, os grupos políticos fazem seus movimentos. Uns procuram ampliar fronteiras. Outros tentam preservar território. E alguns começam, silenciosamente, a preparar a próxima disputa.
Porque, em política, a eleição que termina nem sempre é a mais importante. Às vezes, enquanto todos estão olhando para a urna de hoje, alguns já estão varrendo para dentro pensando na eleição de amanhã.